ao mário cesariny de vasconcelos

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PONTO A PONTO

POR MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS

AO ANTÓNIO MARIA LISBOA

Enquanto três camelos invadiam o aeroporto do Cairo e o pessoal
de terra loucamente tentava apanhar os animais
eu limpava as minhas unhas
quando acabava de ser identificada a casa onde viveu Miguel
Cervantes, em Alcalá de Henares
eu saía para o campo com Rufino Tamayo
enquanto um português vivia trinta anos com urna bala alojada
num pulmão
chegava eu ao conhecimento das coisas

Agora já não há braseiros e os destroços foram removidos
os animais espantaram-se
e como se isso não fosse desde já um admirável e surpreendente
esforço na nossa acção de escritores
afogado num poço canta um homem

ORADOUR-SUR-GLANE
gritos brancos gritos pardos gritos pretos
não mais haverá braseiros – os destroços foram removidos

E não esquecendo o esforço daquele outro
que para aquecer o ambiente apareceu morto
e não enviou convite nem notícia a ninguém

Mundo mundo vasto mundo
(Carlos Drummond de Andrade)
os conspiradores conspiram
os transpiradores transpiram
os transformadores aspiram
e Deus acolhe tudo num grande cesto especial

A lei da gravidade dos teus olhos, mãe,
a lei da gravidade… Aqui está: é um poeta
num barco a gasolina não não não é um operário
com um martelo na mão muito depressa
os automóveis passam o rapazio grita
o criado serve (se não servisse, morria)
os olhos em vão rebentam a pessoa levantou-se
tantas crianças meu Deus lá vai o meu amor
Também ele passou trezentas vezes a rampa
– que estranhas coisas passaram! Os poetas é que sabem
Construção construção
progresso no transporte

ORADOUR-SUR-GLANE

Souviens-toi
REMEMBER

Janeiro, 1953

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performance “a mário cesariny” – projecto mandrágora em faro (arteséries) com gonçalo mattos e m. de almeida e sousa

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um belo conto de natal (apenas para iniciados)

ninguém se atreve, hoje, atravessar os corredores. naquela época, sim.
observávamos a fila de um quilómetro de comprimento. ali, junto a milhares de outros pobres numa espera paciente.
pelo arroz… por, talvez, lentilhas e de outros temas da carreira.
isso. da arqueologia…
tinha vindo, no sábado anterior, das escavações – permanecia no local. puxei da bolsa e, alcancei o que ansiava…
isto não faz parte da narrativa. é, apenas, um recordar. uma coisa outra.
o meu objectivo, para além de  adquirir a mansão, seria tão só, conseguir o que muito bem é descrito como milagre.
e
claro, apoderar-me das máscaras e das pinturas expostas na biblioteca.

na verdade o seu proprietário que tinha desaparecido entre as orelhas no nilo – durante a estadia no egipto…
precisamente. numa das escavações no templo de rá, uma maldição o levou (rio abaixo) – não passa de rumores?… pois. talvez.
a mansão está localizada numa área exclusiva, nos arredores da cidade.
estava à espera. lá fora. sentado numa cadeira do século XIII, estofada, coberta por um couro verde inglês. as cortinas de tom semelhante, cobriam a entrada dos escritórios. ele era alto, trajava um fato seco e uma camisa vermelha. os sapatos denunciavam o sangue derramado horas antes:…

retrato-auto

– bom dia.
disse ele (a sua voz denunciava certo nervosismo).
– bom dia, como está?…
disse eu – sim, observava-o com certo cuidado.
e
lá fomos trocando palavras ao ritmo da cor dos olhos
– pareces-me simpático. gosto… tens uma boa aura e o olfato diz-me seres…
foi o que ele disse
e
não disse mais porque passou um comboio. o milagre aconteceu

segurando a cabeça adivinhei uma viagem à china. claro que antes tinha investigado uma pintura deslumbrante para além das máscaras – o autor não apenas pintara. actuara com magia – constatei.
e
ele riu.

eu, não. apenas li o livro… sobre isso e, sobre o artista. então, decidi ficar. fiquei… (claro que tinha de escrever o resto… fiquei, por isso mesmo)