tese de doutoramento-parte 12 (in “a virgindade das bibliotecas”)

contem-plo

aderiu para melhor cumprir a história compilada numa das páginas do seu canhenho de notas e, em seguida, contou as linhas
exibia aquele enraivecido riso que nos pode descrever – qual cavaleiro que, sobre a montada, mostra o tesouro que encerra entre pernas – um artista inadequado
tinha de evitar as palavras
ainda que o tempo se afirmasse insuficiente, provou a estranha água do oasis
e
deixou-se cair no fundo do precipício para ler um livro embalado pelos ruídos do título
as ruínas fazem-nos acreditar – mais facilmente – nas mudanças. livram-nos dos textos ancorados nos sulcos irregulares
crisparam-se-lhe os nervos e, rendeu-se a um tremendo calafrio – cerrou os olhos com a navalha enquanto sacudia a cabeça de um lado para o outro
parecia pedir exorcismos mais eficazes para melhor enfrentar os estranhos terrenos etéreos
sim. a ausencia de gravidade era notória
olhou demoradamente para o autocolante que se havia colado ao pára-choques e perguntou ao sacristão se, acaso, a cerimónia iria comportar missa – a resposta foi um sim. coisa para uma hora, disse
logo… o suficiente para lançar a virgindade pela borda fora
ali
entre-os-muros da igreja
com a respiração profunda
sem uma palavra comunicava-lhe a entrega
fundamental é esse acto
cada vez mais
e
ainda mais equitativo…
mas é de não menosprezar a possibilidade de escrever um (qualquer) tratado, ainda que sem importância, no seu carro-biblioteca e empurrar as palavras para lá
isso. para lá do ciclo quente
e
contabilizar os requisitos – para uma cada vez melhor escrita…
pensou, também, na hipótese de codificar cada uma das páginas e pregá-las nas paredes da igreja
as suas frases ornamentavam o andor que abria a procissão
os cachorros uivavam alfabetos estranhos o que provocou a redonda queda do sacerdote – os sentidos afloram e, descobriu um enorme gozo (coisa que até ali nunca fora explorada)
para montar um poema exigia outro ritmo – nunca a galope – um suave trote pensado a partir dos movimentos de um jornal e, em seguida, estruturar uma alegoria complexa que nos alimente. ainda que amparados por flocos de algodão

 

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a caixa & o livro

uma caixa

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um livro

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uma caixa abertacaixa abertaL

uma caixa aberta com um livro dentro

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uma caixa aberta com um livro (quase) dentro

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uma caixa fechada com um livro dentro

caixa-fechada3

 

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caixa poética in: “3 ciclos & a morte a reboque” de m. almeida e sousa (edição “bicicleta”) livro em processo

poemas “sorrisos de crocodilo” de m. d’almeida e sousa

Manifesto
do Crocodarium Dada

As lâmpadas estátuas saem do fundo do mar e gritam viva DADA para saudar os transatlânticos que passam e os presidentes dada o dada a dada os dadás uma dada um dada e três coelhos à nanquim por arp dadaísta em porcelana de bicicleta estriada nós partiremos para Londres no aquário real perguntem em todas as farmácias pelos dadaístas de rasputin do tzar e do papa os quais só valem por duas horas e meia.

Hans Arp

“SORRISOS DE CROCODILO”
uma edição de “crocodarium”
3 € (apenas) – contacto: mandragorarte@aim.com
e
é bonita – a edição
poemas de m. almeida e sousa

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phalo2

pendurado por alto falantes 
o som elétrico mordeu-lhe as canelas 

sempre só
para melhor ver dançar a multidão 
que cativante…
os cabelos olharam 
e
em nenhum momento responderam
sim. pois sim
uma vez que a emoção 
a do filme-azul 
exigia o franzir de testas
para baixo-baixo… 
para baixo-baixo e rápido
sempre a cantar 
ao ouvido

estas dezoito linhas não fui eu que as disse (escrevi). estas dezoito linhas foram pronunciadas como um grito
e
com a indiferença de uma taça de vinho servido sem outras perguntas, sem problemas, sem nojo…

quem as disse?

sei pouco
apenas recordo uma figura presa às paredes da sala. uma dentadura velha que escorregou pela alvura vertical…

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in: “voar com as corujas” (em processo de edição)

exp-88

novo baralho de cartas (de M. Almeida e Sousa)

este baralho de cartas (acabado de fazer no dia 7 de agosto de 2017) segue o grafismo das cartas de jogar portuguesas tradicionais, 4 naipes com cartas numeradas de 1 a 10 e 4×3 figuras que representam os reis, as damas e os cavalos ou cavaleiros. os naipes, por sua vez, representam o fogo (paus), a terra (moedas), o ar (espadas) e a água (taças). o projecto gráfico é de m. almeida e sousa – conta as costas das lâminas com imagem extra (clicar nas imagens para ampliar).

 

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isso não é poesia. isso é pintura e é teatro, é…

isso não é filosofia, é poesia. isso é – digo – pintura e, é teatro, é… evidente que voto sempre nos livros em alternativa à dança das galinhas – com ou sem as (muitas) variáveis ​​a considerar.

madeira

por vezes pergunto-me:…

como se dançará o planeamento urbano?

com os punhos cerrados

na barra do bar meio-perdido na multidão

observei-a. passeava o cão por entre as cadeiras e mesas do bar. o cão mijava nas pernas dos clientes – era uma prática aceitável, uma vez que todos estavam preparados para o aguaceiro

outras vezes penso:…

gosto de ler com uma lagosta pela trela. sim, pode ser ao longo das margens do sena.

isso. ler muito lentamente como se fosse louco.

depois volto a pensar:…

bom mesmo é transportar livros com trechos de morte entremeados por terremotos. só assim a dor dos manuscritos poderá resvalar nas fissuras de um penhasco calcário para que, ao longo dos séculos, possam vir a tornar-se parte dos estratos fósseis e…

se assim for, resta-nos a lã. a que se debruça sobre os olhos… claro que isso é outra coisa; tem muito a ver com a ortografia calculada pelo voo das moscas