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phalo2

pendurado por alto falantes 
o som elétrico mordeu-lhe as canelas 

sempre só
para melhor ver dançar a multidão 
que cativante…
os cabelos olharam 
e
em nenhum momento responderam
sim. pois sim
uma vez que a emoção 
a do filme-azul 
exigia o franzir de testas
para baixo-baixo… 
para baixo-baixo e rápido
sempre a cantar 
ao ouvido

estas dezoito linhas não fui eu que as disse (escrevi). estas dezoito linhas foram pronunciadas como um grito
e
com a indiferença de uma taça de vinho servido sem outras perguntas, sem problemas, sem nojo…

quem as disse?

sei pouco
apenas recordo uma figura presa às paredes da sala. uma dentadura velha que escorregou pela alvura vertical…

_______

in: “voar com as corujas” (em processo de edição)

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novo baralho de cartas (de M. Almeida e Sousa)

este baralho de cartas (acabado de fazer no dia 7 de agosto de 2017) segue o grafismo das cartas de jogar portuguesas tradicionais, 4 naipes com cartas numeradas de 1 a 10 e 4×3 figuras que representam os reis, as damas e os cavalos ou cavaleiros. os naipes, por sua vez, representam o fogo (paus), a terra (moedas), o ar (espadas) e a água (taças). o projecto gráfico é de m. almeida e sousa – conta as costas das lâminas com imagem extra (clicar nas imagens para ampliar).

 

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isso não é poesia. isso é pintura e é teatro, é…

isso não é filosofia, é poesia. isso é – digo – pintura e, é teatro, é… evidente que voto sempre nos livros em alternativa à dança das galinhas – com ou sem as (muitas) variáveis ​​a considerar.

madeira

por vezes pergunto-me:…

como se dançará o planeamento urbano?

com os punhos cerrados

na barra do bar meio-perdido na multidão

observei-a. passeava o cão por entre as cadeiras e mesas do bar. o cão mijava nas pernas dos clientes – era uma prática aceitável, uma vez que todos estavam preparados para o aguaceiro

outras vezes penso:…

gosto de ler com uma lagosta pela trela. sim, pode ser ao longo das margens do sena.

isso. ler muito lentamente como se fosse louco.

depois volto a pensar:…

bom mesmo é transportar livros com trechos de morte entremeados por terremotos. só assim a dor dos manuscritos poderá resvalar nas fissuras de um penhasco calcário para que, ao longo dos séculos, possam vir a tornar-se parte dos estratos fósseis e…

se assim for, resta-nos a lã. a que se debruça sobre os olhos… claro que isso é outra coisa; tem muito a ver com a ortografia calculada pelo voo das moscas

ao mário cesariny de vasconcelos

m-cesariny-01

PONTO A PONTO

POR MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS

AO ANTÓNIO MARIA LISBOA

Enquanto três camelos invadiam o aeroporto do Cairo e o pessoal
de terra loucamente tentava apanhar os animais
eu limpava as minhas unhas
quando acabava de ser identificada a casa onde viveu Miguel
Cervantes, em Alcalá de Henares
eu saía para o campo com Rufino Tamayo
enquanto um português vivia trinta anos com urna bala alojada
num pulmão
chegava eu ao conhecimento das coisas

Agora já não há braseiros e os destroços foram removidos
os animais espantaram-se
e como se isso não fosse desde já um admirável e surpreendente
esforço na nossa acção de escritores
afogado num poço canta um homem

ORADOUR-SUR-GLANE
gritos brancos gritos pardos gritos pretos
não mais haverá braseiros – os destroços foram removidos

E não esquecendo o esforço daquele outro
que para aquecer o ambiente apareceu morto
e não enviou convite nem notícia a ninguém

Mundo mundo vasto mundo
(Carlos Drummond de Andrade)
os conspiradores conspiram
os transpiradores transpiram
os transformadores aspiram
e Deus acolhe tudo num grande cesto especial

A lei da gravidade dos teus olhos, mãe,
a lei da gravidade… Aqui está: é um poeta
num barco a gasolina não não não é um operário
com um martelo na mão muito depressa
os automóveis passam o rapazio grita
o criado serve (se não servisse, morria)
os olhos em vão rebentam a pessoa levantou-se
tantas crianças meu Deus lá vai o meu amor
Também ele passou trezentas vezes a rampa
– que estranhas coisas passaram! Os poetas é que sabem
Construção construção
progresso no transporte

ORADOUR-SUR-GLANE

Souviens-toi
REMEMBER

Janeiro, 1953

m-cesariny

 

m-performance-a-cesariny

performance “a mário cesariny” – projecto mandrágora em faro (arteséries) com gonçalo mattos e m. de almeida e sousa

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um belo conto de natal (apenas para iniciados)

ninguém se atreve, hoje, atravessar os corredores. naquela época, sim.
observávamos a fila de um quilómetro de comprimento. ali, junto a milhares de outros pobres numa espera paciente.
pelo arroz… por, talvez, lentilhas e de outros temas da carreira.
isso. da arqueologia…
tinha vindo, no sábado anterior, das escavações – permanecia no local. puxei da bolsa e, alcancei o que ansiava…
isto não faz parte da narrativa. é, apenas, um recordar. uma coisa outra.
o meu objectivo, para além de  adquirir a mansão, seria tão só, conseguir o que muito bem é descrito como milagre.
e
claro, apoderar-me das máscaras e das pinturas expostas na biblioteca.

na verdade o seu proprietário que tinha desaparecido entre as orelhas no nilo – durante a estadia no egipto…
precisamente. numa das escavações no templo de rá, uma maldição o levou (rio abaixo) – não passa de rumores?… pois. talvez.
a mansão está localizada numa área exclusiva, nos arredores da cidade.
estava à espera. lá fora. sentado numa cadeira do século XIII, estofada, coberta por um couro verde inglês. as cortinas de tom semelhante, cobriam a entrada dos escritórios. ele era alto, trajava um fato seco e uma camisa vermelha. os sapatos denunciavam o sangue derramado horas antes:…

retrato-auto

– bom dia.
disse ele (a sua voz denunciava certo nervosismo).
– bom dia, como está?…
disse eu – sim, observava-o com certo cuidado.
e
lá fomos trocando palavras ao ritmo da cor dos olhos
– pareces-me simpático. gosto… tens uma boa aura e o olfato diz-me seres…
foi o que ele disse
e
não disse mais porque passou um comboio. o milagre aconteceu

segurando a cabeça adivinhei uma viagem à china. claro que antes tinha investigado uma pintura deslumbrante para além das máscaras – o autor não apenas pintara. actuara com magia – constatei.
e
ele riu.

eu, não. apenas li o livro… sobre isso e, sobre o artista. então, decidi ficar. fiquei… (claro que tinha de escrever o resto… fiquei, por isso mesmo)