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– a guerra
… … perguntou ela
e eu só disse
– sim a guerra
e ela olhou
… … nos olhos
eu não.
… … baixei
então arrefeceu um pouco
não falamos
pausa
… … grande pausa
só então eu disse
– a guerra
ela disse
– pois
e não rimos
porque o olhar estava longe
… … noutro continente
húmido
… … quente
então revi
… … vi
o sangue escorria pelos embondeiros
o calor
o pântano
os corpos apodreciam ao sol
as moscas
– as moscas
perguntou ela
– sim
… … disse eu
e fiquei mudo
os olhos verdes dela perguntaram
eu, não respondi
só disse
– a guerra foi há muito tempo
lembro o sangue que escorria dos embondeiros

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472

desintegram-se os dias atrás das cercas
massacram
as estradas
e
os pântanos-xarope

os olhos refletem imagens na decomposição das aves em voo picado

nós
empilhados debaixo do viaduto penduramos como ventos-meias as farpas estranguladas em trepadeiras
ah!… como são lindas
as fortalezas de amora
os preservativos despedaçados na humildade dos colchões
e
o ouro de nuvens fumegantes

os discos compactos são, tal qual, lírios de prata
brincam com latas de cerveja
na camuflagem de uma chaminé-caracol

a papelada industrial liberta enxames de pixels d’ouro
sinto-os nas virilhas
ah!…
a tua mão direita está quente
o teu garfo empalidece nas escuras águas do rio

este horizonte cinza rouba-me – todos os dias – a arte enferrujada dos meus heterónimos
e hoje
neste lugar-retrato
ensaio o derradeiro assalto à picada de vidro

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