458

a memória é como um grande armazém cheio de prateleiras onde se amontoam
as recordações
as lembranças em saldo
as memórias reconstroem os dias passados
e
graças a elas
poderemos observar as nossas experiências…
agradáveis
desagradáveis
delirantes

_______

in: “o rapaz que devorava comboios ou de uma tampa na memória” poema dramático

BBB-camisa-poeBBB-mão-AAABBB-pint-negro

457

a ira abateu os pássaros que sobrevoavam os mares. o mesmo aconteceu com os peixes que cruzavam os céus
e
as bocas, perfuradas pelo anzol, sentiram-se invadidas por pensamentos hediondos
pensamentos que brotavam, solidários, entre luzes descarnadas por obscuras penumbras

ciclo

os filósofos, esses, pedalavam as suas bicicletas. sabiam da violência. sabiam, já, dos corpos
e
qualquer pensamento
qualquer espécie ou mesmo intenção era agradável uma vez que o desenvolvimento e a transformação da espiral do tempo permitia contar com as adversidades coladas aos anos que carregavam sobre o dorso.
as bicicletas deles…
não. não, definitivamente.
as bicicletas deles eram de papel. dum papel pardo quase inexistente
e
por esse facto extremamente caras.

(in “o rapaz que devorava comboios” – em livro discordante do acordo – mui brevemente)

453

1 imagem para

1 poema de Francis Picábia

BBB-dada-esferas

O olho frio

Depois da nossa morte deviam meter-nos numa bola, e essa bola seria de madeira de várias cores. Deixavam-na rolar para nos levar ao cemitério e os cangalheiros responsáveis por esse trabalho usavam luvas transparentes, para trazer aos amantes a lembrança da ternura.

Para aqueles que desejassem enriquecer a sua mobília com o prazer objectivo do ser querido, havia bolas de cristal, através das quais se poderia perceber a nudez definitiva de um avô ou de um irmão gémeo.

Sulco de inteligência, lâmpada corta-mato; os homens parecem-se com os corvos de olhos fixos que levantam voo por sobre os cadáveres e todos os peles-vermelhas são chefes de estação!

francos picábia